O Mapa do Tempo

07Mar10

Autor: Félix J. Palma

Título original: El mapa del tiempo

Editora: Planeta (2010)

Páginas: 550

Sinopse: Se pudesse viajar no tempo… Que época escolheria? Londres, 1896. Inúmeros inventos convencem o Homem de que a ciência é capaz de conseguir o impossível, como o demonstra o aparecimento da empresa Viagens Temporais Murray, que abre as suas portas disposta a tornar realidade o sonho mais cobiçado da humanidade: viajar no tempo, um anseio que o escritor H. G. Wells tinha despertado um ano antes com o seu romance “A Máquina do Tempo”. De repente, o Homem do século XIX tem a possibilidade de viajar até ao ano 2000, e é o que faz Claire Haggerty, que vive uma história de amor através do tempo com um homem do futuro. Mas nem todos querem ver o amanhã. Andrew Harrington pretende viajar até ao passado, a 1888, para salvar a sua amada das garras de Jack, o Estripador. E o próprio H. G. Wells enfrentará os riscos das viagens temporais quando um misterioso viajante chegar à sua época com a intenção de assassiná-lo e roubar-lhe a autoria de um romance, obrigando-o a empreender uma desesperada fuga através dos séculos. Mas que acontece se alterarmos o passado? É possível rescrever a História?

Opinião:

O Mapa do Tempo para mim foi um daqueles comuns casos de perseguição à pessoa por parte do livro. Sabem, quando entramos inocentemente numa livraria para ver as novidades, os destaques, o Top, pegar neste e naquele volume, cuscar esta e aquela contracapa, comparar preços, etc, e por mais voltinhas que se dê às estantes a realizar tais tarefas, é impossível ignorar um determinado livro que por qualquer razão nos chama a atenção desde o início, e que assim nos persegue para todas as direcções com os seus olhinhos de papel arregalados a espelharem um LEVA-ME PELO AMOR DE DEUS, LEVA-ME. E que podia eu fazer? Naturalmente, trouxe-o comigo. (Paguei-o antes de sair da loja.) E ainda bem que fiz, pois A-DO-REI.

Para ser sincera, não sei bem como fazer esta review sem “spoilarizar” quem eventualmente esteja a ler isto e não tenha, mas faça questão, de ler este livro, no entanto… suponho que posso tentar. 😀

Num estilo de escrita soberba, tendencialmente cómica e mordaz, riquíssima em pormenores deliciosos, Palma transporta o leitor para a Londres vitoriana e para o meio de um enredo do qual fazem parte, para além um rol de personagens naturalmente saídas do seu imaginário, outras bem conhecidas da História, tais como Mary Kelly e o seu impiedoso assassino Jack the Ripper, Joseph Merrick, mais conhecido por Homem Elefante,  e claro está, H. G. Wells. Quem diria! H. G. Wells, personagem de um romance! É verdadeiramente eficaz a maneira como Palma lhe dá vida. E durante as suas passagens é como se fossemos nós próprios (invisíveis) viajantes do tempo e estivéssemos lá, em Wooking (lugar onde ele mora) perante o Wells em pessoa, a vê-lo deambular pela casa e a adivinhar-lhe os pensamentos.

Este livro está literalmente dividido em 3 partes, e confesso que quando terminei a primeira e iniciei a segunda, disse de mim para mim, Espera lá, mas isto é um conjunto de histórias? Não é. E só foi preciso esperar um bocadinho para chegar à ligação.

A primeira parte centra-se então em Andrew Harrington, um jovem muito rico e infeliz na mesma medida, que certo dia se apaixona irremediavelmente por Mary Kelly. Sendo conhecido o desfecho desta rapariga, adivinha-se que Andrew vai passar a ser mais infeliz do que era, ao ponto de se colocar à distância de uma premidela de gatilho de uma pistola do suicídio. E eis que surge a hipótese de “viajar no tempo” e de assim salvar a sua amada e, consequentemente, ele próprio.

Na segunda parte temos uma jovem mulher, Claire Haggerty, sufocada pelos costumes da época que a obrigam a comportar-se como manda o figurino, a ter de casar-se com o melhor partido que conseguir e ser uma impecável dona de casa. Tudo isto são cenários que lhe fazem subir o vómito à boca, ou pior: não ter, também ela, à semelhança de Andrew, vontade de continuar a viver. É então que Claire “viaja” até ao ano 2000, onde a visão de um “homem do futuro”, a faz sentir borboletas esvoaçantes no estômago, o que nunca antes a visão de algum pretendente tinha feito. (Se o uso das “…” intrigou alguém, que saiba que é o melhor que posso fazer para evitar os spoilers.)

Na terceira e derradeira parte, Wells, que até agora tinha tido um papel secundário, passa a herói da trama ao desvendar os últimos mistérios e a interligar as pontas soltas que ainda sobravam – de génio!

Ao longo desta leitura lembrei-me constantemente do His Dark Materials de Philip Pullman, ainda que não sejam pré-adolescentes a saltitar entre universos paralelos a fugir dos maus-da-fita ou atrás deles, mas adultos do século dezanove. Outra referência comparativa que não sei se vai recomendar ou por outro lado repelir este O Mapa do Tempo, é Eça de Queirós, pois não pude deixar de encontrar algumas semelhanças entre a sua escrita e a de Palma: humor sagaz, astúcia de discursos, e algumas passagens mais descritivas. Como adoro o Eça, para mim esta referência é um tremendo de um elogio.

Em suma: terrivelmente divertido, complexo e didáctico – VÃO LER ESTE LIVRO, JÁ! 🙂

Goodreads ǀ Planeta

Classificação: 9/10



12 Responses to “O Mapa do Tempo”

  1. Devo dizer que esta review me deixa deveras intrigada. Possivelmente é parte de time travel, mas o facto de aparecer o H. G. Wells parece ser engraçada. Eventualmente hei-de pedi-lo emprestado… 😛

    • Uuuh… 2 advérbios de modo em 3 pequenas frases, intriguei-te mesmo!:D
      É muito bom, e o Wells… bem eu até fiquei com vontade de ler os livros dele, e é como se o tipo passa-se a ser um conhecido meu, ou assim.
      Quando quiseres.

  2. 4 Verónica

    Mas que review!! Para quem leu o livro, eu acho que fizeste justiça sem escrever spoilers! 😀 adorei!

    PS: estou a ler outra vez! adoro como o Palma se dirige a nós 😀

    • Eia! Mais uma fã do Palma! Olá Verónica!
      Aww, obrigada, e foi um esforço bem grande não desbobinar aqui na opinião o que afinal se passa neste livro, mas este é um daqueles que perderia mesmo a graça se se souber a verdade daquelas viagens temporais (pelo menos da 1ra vez que se lê), por isso quantos menos spoilers andarem por essa internet fora, melhor. (Mas custou xD)
      Este autor é genial,só tenho pena que ainda não haja mais nada dele traduzido para a gente ler…boa leitura nesse caso, um dia também tenho de pegar nele outra vez, vale bem a pena, também adoro a narração, é de chorar a rir! 😀


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